3 de fevereiro de 2010

Língua (Caetano Veloso. Velô,1984)



Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões.
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa,
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade.
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua,
“Minha pátria é minha língua”
-Fala Mangueira!

Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?

30 de janeiro de 2010

12 de janeiro de 2010

Fragmentos do livro "A eternidade e o desejo" de Inês Pedrosa



"O que se vê nunca se pode narrar com rigor. As palavras são caleidoscópios onde as coisas se transformam noutras coisas. As palavras não têm cor- por isso permanecem quando as cores desmaiam"

"Conheceu Deus o seu ser, a sua grandeza, a sua infinidade, a sua omnipotência; e o parto que saiu deste imenso conceito de si mesmo, foi outro ele; outro mesmo foi e é o Verbo, tão grande, tão imenso, tão infinito, tão omnipotênte, tão Deus como o mesmo Pai. A imagem mais perfeita, a proporção mais ajustada, e a medida mais igual da obra, é o conhecimento de si mesmo em quem a faz"

"E como o primeiro efeito, ou a última disposição do amor, é cegar o entendimento, daqui vem que isto, que vulgarmente se chama amor, tem mais partes de ignorância; e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama porque conhece, é amante; quem ama porque ignora, é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem ignorando ofendeu, em rigor não é delinquente. Quem ignorando amou, em rigor não é amante"

10 de janeiro de 2010

Impulso



Foi no dia da preguiça, de quem cansou de procurar, que ele me olhou de soslaio e chegou com aquele impulso solto, que só quem sente sabe o que é, coisa de dentro, passo de fé. Derrepente se fez muito: encheu de canto os meus cantos, me deu suspiros sortidos, abraços distribuídos -Ê coisa boa que perdura. Não cobrou fatura, me ama sem pesar e sem gastura. Não é daqueles amores que param por desgaste, maltratam ou enjoam (efeitos todos de paixão que sofre calada, explode pra dentro, paixão que esquece de quem gosta, rasga os defeitos, se camufla e vai embora igual chega: rápida, mágica e trágica).  
Só que agora,  penso nele toda hora, como quem respira e senta. Satisfeita me contento bem contente. Me embala a nova melodia de sinos de alegria, que invadiu meu lar, em forma de um par.

8 de janeiro de 2010

Malva

Texto feito no dia 4/12/2009

Foi em alguma de suas tertullias que Malva percebeu sua solidão, entre algumas pessoas notou o quão sozinha era. Sempre fora rodeada por amigos, mas sentia que desaparecia entre a multidão que a cercava, que chamava seu nome mas não a conheciam e não sabiam da sua história. Sentiu-se só não somente  de pessoas, mas de sí. Percebeu que não descobrira-se, não sabia identificar seus sentimentos e as vezes se enganava tanto, que acreditava em suas próprias mentiras. No silêncio tentava fugir de sí, nunca parou para se observar e sentir seu corpo, nesse momento, ou colocava uma música, ou lia um livro ou ligava para alguém. O seu eu tentava confrontá-la,  mas ela se fazia surda para não escutá-lo.
Porém, quando descobriu essa solidão, pensou pela primeira vez na relação que tinha com o corpo que habitava e questinou se seria tratada de maneira diferente pelas pessoas se tivesse outro corpo e fosse um pouco mais baixa ou mais gorda. Também se questionou sobre o que realmente a deixava triste, porque as vezes mascarava um motivo de tristeza e o escondia, pois acháva-o tolo demais para ser considerado e também pensou no que realmente a deixava feliz.
Ficou alguns minutos repetindo o seu nome com os olhos fechados malva, malva, malva, malva, malva, e sentiu como se puxassem sua alma pela boca.
Passou as mãos no rosto e sentiu o formato do nariz, a concavidade dos olhos, a textura da sua pele, sua boca, o formato do queixo, as suas saliências e escutou sua respiração.
Pensou na infância e tentou resgatar desta o que contribuiu para que ela fosse ela, perguntou-se se seria a mesma se tivesse sido criada em outro ambiente e por outras pessoas, questinou sua essência, ela por acaso mudaria?
No dia que Malva ficou sozinha, ela gerou a Malva, que fez companhia para a Malva, até então sozinha.

21 de dezembro de 2009

Exausto

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adélia Prado

15 de dezembro de 2009

Meu orgulho.

Se um dia perguntarem pelo meu orgulho, vou responder sem duvidar que o motivo raro, puro e em carne para me orgulhar, está prestes a me levar pro altar. Vou com ele sem hesitar. Num instante o concebi e como quem não pensa (em outra coisa) disse, arrancando de mim, as palavras para quem são - Acho que te amo. Ele - Num sorriso limpo, arriscou - Por quê?. Então,  rápida e com certeza, só respondi: Por causa de você. O sorriso voltou e seu beijo não saiu de mim. A sensação não tem fim, não sou néscia, o conheço tão bem em pouco espaço e quero ele pra sempre- Assim. Não tem o peso das paixões antigas e nem a leviandade que o tempo trazia, ele cresce, continua e permanece.

13 de dezembro de 2009

Poemas do Baú

Poema feito no dia: 22/09/2009

Confissão

Saiba, meu bem
Que o sinos soam
As meninas se arrependem
No genuflexório ficam as
Lembranças das blasfêmias
Bem vividas e experimentadas
De bocas nuas que fazem
Sorrisos e sofismos
Sorvem e depois somem
Dos pobres dasavisados
Desventurados que ficam a sonhar
Com amores não realizados

 
Poema feito para meu amigo no dia 14/10/2009
 
Poema de melhor amigo.

Tudo pelo sorriso do Caio
Uma pirueta no ar e alguns segredos de se espalhar
Mentiras muito mal contadas, só para ouvir as suas gargalhadas

Companheiro de viagens, das danças e cantigas inventadas.
Caio na vida
Caio de maio, março, abril
Cacoso, cascudo, caramujo, caramelo
Caio mago, Caio peixe, Caio Prado

EU CAIO no samba, EU CAIO no fado, EU CAIO nos fatos, EU CAIO nos pratos
Caio cristão, Caio pagão, Caio meu irmão
Caio menino, Caio chaves, Caio lixo, Caio meio bicho
Caio ri, Caio em sí
Caiomim, Curumim, Caioama, Caiomar, Caioamar.
Caio lá, Caio cá, Caioumbigo. Caio meu amigo.

8 de dezembro de 2009

A menina dos fósforos

No domingo tive uma deliciosa oficina de literatura proporcionada pela vivência cultural da prefeitura de SP, a pessoa que a ministrou decorreu sobre diversos gêneros literários, e no momento em que ele falou das fábulas, lendas e contos de fadas senti uma espécie de nostalgia, pois esses são gêneros que lí muito na minha infância e de certa maneira, me ajudaram bastante a compreender a vida e passar por algumas situações.
Há pessoas que acham as histórias perigosas pois dizem que nos afastam da realidade, mas penso que é o contrário, elas nos ajudam a compreender melhor a realidade e nos dão base para encará-la.
Um conto que me tocou muito quando lí  foi "A menina dos fósforos ", lembro até hoje da emoção que eu, no ápice dos meus 9/10 anos, senti ao lê-lo.

Segue o conto abaixo:

A menina dos fósforos
H.C. Andersen

Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre menina seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua correndo para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.

Por isso, a menina seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a todos que passavam, dizendo: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha ido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre criança! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava.


Sentou-se no chão e encolheu-se no canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de uma lareira cheia de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e a lareira desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão.

Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a menina viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de louças delicadas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da menina. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria.

E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as vitrines das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direção à terra, deixando atrás de si um comprido rastro de luz.

«Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe à vezes: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.»

Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!

— Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como a lareira, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda.

Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços e, soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.

Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma menina, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… morta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo.

3 de dezembro de 2009

Sobre o muito pensar.

Penso nele sem doer
De um jeito que acalma
Não rói, não torce nem despedaça
Anima a alma!
Me ajuda a comemorar, tira a agonia
Dou sorrisos disfarçados
Como alguém a sonhar
E quem olha pra tamanha alegria
Tenta adivinhar

Penso nele sem rigor
Não tem horário
Não tem torpor
Nem rotina
Nem itinerário
Desvario de sonhar.

Penso nele sem cansar
No café, na escola, no trabalho e aonde mais passar
É tão leve que não tem obrigação de falar
Só de ver, da pra notar que o pensamento não sai de lá...

Penso nele sem pensar
Aparece lá como se fosse estampa
Marcado de tinta, fresco, novo e solto!
Todo à toa, de popa à proa.