31 de janeiro de 2011

Experiência

O que representa uma experiência religiosa, na minha concepcāo, é o contato com o divíno movido por alguma experiência. Pode ocorrer na leitura de um livro,de uma  poesia, na doença, na alegria, em uma conversa ou qualquer outra situação.

A bíblia relata muitos milagres de Jesus, mas as experiências mais marcantes da sua trajetória e que mais nos ensinam algo, são aquelas que ocorreram por meio de um diálogo, um toque, um exemplo, uma história e outras atitudes que não são miraculosas , mas que foram totalmente tranformadoras e  proporcionaram as mais profundas experiências religiosas. Como, por exemplo, a conversa que teve com a mulher samaritana junto a um poço ou o toque no leproso, ambas as situações devolveram a identidade dessas pessoas, ou o sermão do monte, as parábolas, ou quando lavou os pés dos discípulos e todos os outros ensinamentos.

Várias vezes esperei algum acontecimento miraculoso como resposta às minhas inquietações. Algo do tipo- "se aquela pomba pousar no poste, quer dizer que tal coisa vai acontecer", ou de buscar situações que me sensibilizassem para "entrar em contato com o divino".

Mas as experiências mais marcantes que tive, não aconteceram em um ambiente que instigasse o meu emocional, não dependeram de situações que o acaso possa interferir, não foram transmitidas por pessoas influentes, não foram miraculosas e tampouco grandiosas. Pelo contrário, aconteceram nos lugares mais inusitados, com pessoas que não tinham pretensão alguma de mudar a minha vida e quando eu menos esperava.

Uma delas foi ao ler a história infantil "O cavalo e o menino", de C.S. Lewis. A leitura toda constituiu uma experiência religiosa que me ensinou muito sobre a soberania de Deus e a maneira como trata cada pessoa como um ser único. Pude perceber por meio da personagem Shasta que o valor e a identidade da pessoa não se constitui nos seus feitos, na sua capacidade intelectual e nem nas experiências por ela vivenciadas, mas na própria humanidade. Pois Deus é apaixonado pelo o que somos e não pelo o que fazemos. Antes de nos ensinar, Ele nos ama. Antes de ter um relacionamento conosco, Ele nos ama. Ama incondicionalmente.

Outra experiência marcante que me ensinou exatamente a mesma coisa (as vezes precisamos re-aprender algo diversas vezes) aconteceu em uma época em que estava fazendo uma faculdade da qual não gostava, não sabia o que queria da vida e tinha terminado um relacionamento longo que abalou profundamente a minha autoestima. Nessa época, fui ao centro da cidade com uma amiga comprar uns tecidos e lembro que estava me sentindo triste e esquecida por Deus.
No meio da loja de tecidos, aconteceu algo inusitado, uma faxineira que passava do nosso lado enquanto escolhíamos o tecido, pegou a minha mão, olhou nos meus olhos e disse " Deus te ama, você é linda". Isso me envolveu como se fosse um abraço de Deus. As palavras "você é linda" não soaram como um elogio a minha aparência exterior, mas tiveram o seguinte significado: "eu te amo independente do que você faça, eu te valorizo e eu a amo do jeito que é ". E não digo que foi Deus falando através daquela mulher, mas a fala dela veio exatamente no momento em que precisava ouvir isso e produziu em mim uma experiência religiosa.

Gosto da maneira como Deus trabalha na vida de cada um. Ele é bem detalhista e pessoal. Por isso acredito que para perceber esses detalhes e vivenciar experiências religiosas, é necessário aguçar a sensibilidade e seguir ao pé da letra a epígrafe do livro "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago- "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." .

21 de janeiro de 2011

Cd riscado.

Se de um jeito

Não conseguiu falar

Ou se falou, e o ouvido é que não soube interpretar


Se a palavra não penetra

As letras ficam vagas

O verbo impessoal

O sujeito inexistente

A oração é banal


Se o vocabulário já se esgotou

Se virou cd riscado

Déjà vu constante

Roupa usada

Idéia velha

Ferida mal curada


Não deixe a emoção falhar

Eis uma oportunidade

Veja bem:

Há milhares de jeitos de se expressar

Com inteligência sabe-se desvendar

.

O melhor jeito de falar

As vezes é:
Saber calar.

Vieste (Ivan Lins)

Vieste na hora exata
Com ares de festa e luas de prata
Vieste com encantos, vieste
Com beijos silvestres colhidos prá mim
Vieste com a natureza
Com as mãos camponesas plantadas em mim

Vieste com a cara e a coragem
Com malas, viagens, prá dentro de mim
Meu amor

Vieste a hora e a tempo
Soltando meus barcos e velas ao vento
Vieste me dando alento
Me olhando por dentro, velando por mim

Vieste de olhos fechados num dia marcado
Sagrado prá mim
Vieste com a cara e a coragem
Com malas, viagens, prá dentro de mim

18 de janeiro de 2011

Saudade

Presença calada
Cumplicidade no instante
Vazio que entorna uma vontade louca de arrancar do peito só para observar.

2 de agosto de 2010

Pintura

as marias-sem-vergonha se enfileiram na janela
vermelha-laranja-amarela-verde-azul claro- azul escuro- roxo
contemplam o céu estrelado e a lua minguante
as cores se desprendem delas e formam um arco-íris esfumado
o brilho da lua ilumina a madeira do parapeito


que mistério há nas palavras que conseguem mostrar o que o olho não sabe contemplar?

23 de maio de 2010

Menina

Ela é pura confusão, seus caminhos desviam da alma- não se deixam compreender.


Tem o peso da idade que não completou, viveu o que não chegou e passou ao largo do que era pra ser- sempre quis mais do que podia na hora exata que decidia ter. Ela é velha para a idade do corpo- não por que sofreu além do que a mente aceita, mas as situações que passou lhe bastaram diante da sua sensibilidade fina.

Ela pensa que aprendeu e diz que vai mudar. Mas tudo se repete. E no final, ela sempre volta pro mesmo lugar.

Seus olhos cospem o que sente: não consegue disfarçar. Se fica nervosa, fala alto, grita, chora e ofende. Reações de alguém, que tem vergonha de mostrar a fragilidade que está estampada lá- na sua auto-estima. Mas vejam só- ela é ela sem se justificar.Tem personalidade. Sabe ser e sabe estar. Só lhe falta uma alegria que só a estima poderia lhe proporcionar- a certeza que está bem onde está.

Ela é solta, é toda sentimento e é bela. Ela come com o coração e não se cansa de sonhar.

26 de abril de 2010


Nina sempre foi dada a algumas manias, dizia que elas organizavam a sua vida e a ajudavam  a se sentir estranhamente bem:

Mania de listas. Mania de diários. Mania de colecionar. Mania de fazer drama. Mania de criar situações engraçadas em momentos inoportunos. Mania de estalar os dedos. Mania de se olhar no espelho enquanto chora. Mania de mandar beijo. Mania de cumprimentar estranhos. Mania de cantarolar. Mania de imaginar situações. Mania de anotações.

Mas a mania mais peculiar que Nina tinha, e que só ela conhecia, era a mania de tentar não pensar em coisa alguma. Mas que mania difícil! Todas as tentativas resultavam num grande fracasso! Era sempre a mesma história: ela se fechava em seu quarto, apagava as luzes, sentava no chão e dizia para si "agora não vou pensar em coisa alguma" . Mas em todas as tentativas, ou ela dormia no chão, ou algum pensamento aparecia e ela logo pensava em como parar de pensar naquilo. Situação difícil para quem não quer pensar. Como parar de pensar em algo, sem pensar em como parar?

A admiração que Nina tinha por monges, era, na verdade, uma inveja escondida, sabe por quê? Certa vez um amigo próximo, disse que os monges tinham a capacidade de não pensar em nada. Isso a incomodou na mesma proporção que os cantos guturais dos músicos de Tuva, como podia ser possível? Será que suas tentativas sempre fracassavam por ela não acreditar na possibilidade de não pensar em nada?

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Nina estava cansada, exausta, cheia de pensamentos, pensou na aula de quarta, pensou na cena peculiar que presenciou na faculdade, pensou no passado, pensou na sua mãe e finalmente, pensou nas buganvílias:


*"as mulheres são complicadas. Homem é tão singelo.
Eu sou singelo. Fica singela também.
Respondi que queria ser singela e na mesma hora,
singela, singela, comecei a repetir singela.
A palavra destacou-se novíssima
como as buganvílias do sonho. Me atropelou.
— O que que foi? — ele disse.
— As buganvílias...
Como nenhum de nós podia ir mais além,
solucei alto e fui chorando, chorando,
até ficar singela e dormir de novo"

Nina queria ser singela.
Após pensar nas buganvílias, pela última vez, tentou não pensar em nada.


*Trecho extraído da poesia "No meio da noite" - Adélia Prado. (again)

25 de abril de 2010

Explicação sem ninguém pedir




Não abandonei o blog.

Atualmente, estou dividida entre a minha dupla jornada acadêmica, trabalhos, monografia, apresentações, provas e em procurar decoração, fotógrafos, flores, convites, comidinhas, músicas e tantas outras coisas que um casamento engloba. Sim, vou me casar. Foi tudo muito rápido e intenso, em duas semanas estávamos namorando, em um mês decidimos que iríamos nos casar e em 5 meses de namoro ele me pediu em casamento oficialmente. Agora estou noiva e faltam alguns meses para me casar. Por isso deixo aqui uma poesia bem conhecida da Adélia, cujo título é "Casamento":

Casamento

Adélia Prado


Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Texto extraído do livro "Adélia Prado - Poesia Reunida", Ed. Siciliano - São Paulo, 1991, pág. 252.



12 de março de 2010

Ví uma menina que passa
Como quem dança na esquina
E colore as praças
Solta e leve

Refresca o dia
Com seu ar de menina
E tudo em volta se alvoraça
Muda e some
Quando ela passa

No espelho do olho da menina
Ví os sonhos de uma
Mulher que disfarça
Mas morre de vontade
De voltar a ser uma menina que passa
Cheia de graça

26 de fevereiro de 2010

"Luz das estrelas, laço do infinito, gosto tanto dela assim..."



A Andréia sabe falar, ou melhor, sabe contar, tem histórias a beça, antes quando escutava ela contando das coisas da vida tinha vontade de um dia falar igual a ela, mas nunca fui a pessoa mais eloquente, aliás, as vezes sou bem tímida, coisa que a Andréia não é. Ela gosta de dançar, igual eu, direto ela me rodava num forró até suar e depois agente se abraçava e caia numa gargalhada. É daquelas baianas fortes que não levam desaforo pra casa,vive me dizendo : Se eu pego alguém fazendo alguma coisa pra você...aaa mais eu pego..Ela diz que tem gente que fala ou faz certas coisas pra mim porque eu fico quieta, eu digo que se eu fico quieta é porque não vale a pena responder e ela retruca que não mesmo, é melhor dar uns tapas duma vez, e agente da risada disso. Ela vivia falando - Quel, vamos viajar essa costa inteirinha! Quero um amor em cadaa porrtoo!
 É engraçado, ela me apresenta para os outros como a irmã dela e eu a apresento como minha irmã. E sabe que ela é mesmo? Ela já ta decorada em mim, e eu nela. Sou feliz por conhecer a Andréia.