21 de dezembro de 2009

Exausto

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adélia Prado

15 de dezembro de 2009

Meu orgulho.

Se um dia perguntarem pelo meu orgulho, vou responder sem duvidar que o motivo raro, puro e em carne para me orgulhar, está prestes a me levar pro altar. Vou com ele sem hesitar. Num instante o concebi e como quem não pensa (em outra coisa) disse, arrancando de mim, as palavras para quem são - Acho que te amo. Ele - Num sorriso limpo, arriscou - Por quê?. Então,  rápida e com certeza, só respondi: Por causa de você. O sorriso voltou e seu beijo não saiu de mim. A sensação não tem fim, não sou néscia, o conheço tão bem em pouco espaço e quero ele pra sempre- Assim. Não tem o peso das paixões antigas e nem a leviandade que o tempo trazia, ele cresce, continua e permanece.

13 de dezembro de 2009

Poemas do Baú

Poema feito no dia: 22/09/2009

Confissão

Saiba, meu bem
Que o sinos soam
As meninas se arrependem
No genuflexório ficam as
Lembranças das blasfêmias
Bem vividas e experimentadas
De bocas nuas que fazem
Sorrisos e sofismos
Sorvem e depois somem
Dos pobres dasavisados
Desventurados que ficam a sonhar
Com amores não realizados

 
Poema feito para meu amigo no dia 14/10/2009
 
Poema de melhor amigo.

Tudo pelo sorriso do Caio
Uma pirueta no ar e alguns segredos de se espalhar
Mentiras muito mal contadas, só para ouvir as suas gargalhadas

Companheiro de viagens, das danças e cantigas inventadas.
Caio na vida
Caio de maio, março, abril
Cacoso, cascudo, caramujo, caramelo
Caio mago, Caio peixe, Caio Prado

EU CAIO no samba, EU CAIO no fado, EU CAIO nos fatos, EU CAIO nos pratos
Caio cristão, Caio pagão, Caio meu irmão
Caio menino, Caio chaves, Caio lixo, Caio meio bicho
Caio ri, Caio em sí
Caiomim, Curumim, Caioama, Caiomar, Caioamar.
Caio lá, Caio cá, Caioumbigo. Caio meu amigo.

8 de dezembro de 2009

A menina dos fósforos

No domingo tive uma deliciosa oficina de literatura proporcionada pela vivência cultural da prefeitura de SP, a pessoa que a ministrou decorreu sobre diversos gêneros literários, e no momento em que ele falou das fábulas, lendas e contos de fadas senti uma espécie de nostalgia, pois esses são gêneros que lí muito na minha infância e de certa maneira, me ajudaram bastante a compreender a vida e passar por algumas situações.
Há pessoas que acham as histórias perigosas pois dizem que nos afastam da realidade, mas penso que é o contrário, elas nos ajudam a compreender melhor a realidade e nos dão base para encará-la.
Um conto que me tocou muito quando lí  foi "A menina dos fósforos ", lembro até hoje da emoção que eu, no ápice dos meus 9/10 anos, senti ao lê-lo.

Segue o conto abaixo:

A menina dos fósforos
H.C. Andersen

Estava tanto frio! A neve não parava de cair e a noite aproximava-se. Aquela era a última noite de Dezembro, véspera do dia de Ano Novo. Perdida no meio do frio intenso e da escuridão, uma pobre menina seguia pela rua fora, com a cabeça descoberta e os pés descalços. É certo que ao sair de casa trazia um par de chinelos, mas não duraram muito tempo, porque eram uns chinelos que já tinham pertencido à mãe, e ficavam-lhe tão grandes, que a menina os perdeu quando teve de atravessar a rua correndo para fugir de um trem. Um dos chinelos desapareceu no meio da neve, e o outro foi apanhado por um garoto que o levou, pensando fazer dele um berço para a irmã mais nova brincar.

Por isso, a menina seguia com os pés descalços e já roxos de frio; levava no avental uma quantidade de fósforos, e estendia um maço deles a todos que passavam, dizendo: — Quem compra fósforos bons e baratos? — Mas o dia tinha ido mal. Ninguém comprara os fósforos, e, portanto, ela ainda não conseguira ganhar um tostão. Sentia fome e frio, e estava com a cara pálida e as faces encovadas. Pobre criança! Os flocos de neve caíam-lhe sobre os cabelos compridos e loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço magrinho; mas ela nem pensava nos seus cabelos encaracolados. Através das janelas, as luzes vivas e o cheiro da carne assada chegavam à rua, porque era véspera de Ano Novo. Nisso, sim, é que ela pensava.


Sentou-se no chão e encolheu-se no canto de um portal. Sentia cada vez mais frio, mas não tinha coragem de voltar para casa, porque não vendera um único maço de fósforos, e não podia apresentar nem uma moeda, e o pai era capaz de lhe bater. E afinal, em casa também não havia calor. A família morava numa água-furtada, e o vento metia-se pelos buracos das telhas, apesar de terem tapado com farrapos e palha as fendas maiores. Tinha as mãos quase paralisadas com o frio. Ah, como o calorzinho de um fósforo aceso lhe faria bem! Se ela tirasse um, um só, do maço, e o acendesse na parede para aquecer os dedos! Pegou num fósforo e: Fcht!, a chama espirrou e o fósforo começou a arder! Parecia a chama quente e viva de uma candeia, quando a menina a tapou com a mão. Mas, que luz era aquela? A menina julgou que estava sentada em frente de uma lareira cheia de ferros rendilhados, com um guarda-fogo de cobre reluzente. O lume ardia com uma chama tão intensa, e dava um calor tão bom! Mas, o que se passava? A menina estendia já os pés para se aquecer, quando a chama se apagou e a lareira desapareceu. E viu que estava sentada sobre a neve, com a ponta do fósforo queimado na mão.

Riscou outro fósforo, que se acendeu e brilhou, e o lugar em que a luz batia na parede tornou-se transparente como tule. E a menina viu o interior de uma sala de jantar onde a mesa estava coberta por uma toalha branca, resplandecente de louças delicadas, e mesmo no meio da mesa havia um ganso assado, com recheio de ameixas e puré de batata, que fumegava, espalhando um cheiro apetitoso. Mas, que surpresa e que alegria! De repente, o ganso saltou da travessa e rolou para o chão, com o garfo e a faca espetados nas costas, até junto da menina. O fósforo apagou-se, e a pobre menina só viu na sua frente a parede negra e fria.

E acendeu um terceiro fósforo. Imediatamente se encontrou ajoelhada debaixo de uma enorme árvore de Natal. Era ainda maior e mais rica do que outra que tinha visto no último Natal, através da porta envidraçada, em casa de um rico comerciante. Milhares de velinhas ardiam nos ramos verdes, e figuras de todas as cores, como as que enfeitam as vitrines das lojas, pareciam sorrir para ela. A menina levantou ambas as mãos para a árvore, mas o fósforo apagou-se, e todas as velas de Natal começaram a subir, a subir, e ela percebeu então que eram apenas as estrelas a brilhar no céu. Uma estrela maior do que as outras desceu em direção à terra, deixando atrás de si um comprido rastro de luz.

«Foi alguém que morreu», pensou para consigo a menina; porque a avó, a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas que já não era viva, dizia-lhe à vezes: «Quando vires uma estrela cadente, é uma alma que vai a caminho do céu.»

Esfregou ainda mais outro fósforo na parede: fez-se uma grande luz, e no meio apareceu a avó, de pé, com uma expressão muito suave, cheia de felicidade!

— Avó! — gritou a menina — leva-me contigo! Quando este fósforo se apagar, eu sei que já não estarás aqui. Vais desaparecer como a lareira, como o ganso assado, e como a árvore de Natal, tão linda.

Riscou imediatamente o punhado de fósforos que restava daquele maço, porque queria que a avó continuasse junto dela, e os fósforos espalharam em redor uma luz tão brilhante como se fosse dia. Nunca a avó lhe parecera tão alta nem tão bonita. Tomou a neta nos braços e, soltando os pés da terra, no meio daquele resplendor, voaram ambas tão alto, tão alto, que já não podiam sentir frio, nem fome, nem desgostos, porque tinham chegado ao reino de Deus.

Mas ali, naquele canto, junto do portal, quando rompeu a manhã gelada, estava caída uma menina, com as faces roxas, um sorriso nos lábios… morta de frio, na última noite do ano. O dia de Ano Novo nasceu, indiferente ao pequenino cadáver, que ainda tinha no regaço um punhado de fósforos. — Coitadinha, parece que tentou aquecer-se! — exclamou alguém. Mas nunca ninguém soube quantas coisas lindas a menina viu à luz dos fósforos, nem o brilho com que entrou, na companhia da avó, no Ano Novo.

3 de dezembro de 2009

Sobre o muito pensar.

Penso nele sem doer
De um jeito que acalma
Não rói, não torce nem despedaça
Anima a alma!
Me ajuda a comemorar, tira a agonia
Dou sorrisos disfarçados
Como alguém a sonhar
E quem olha pra tamanha alegria
Tenta adivinhar

Penso nele sem rigor
Não tem horário
Não tem torpor
Nem rotina
Nem itinerário
Desvario de sonhar.

Penso nele sem cansar
No café, na escola, no trabalho e aonde mais passar
É tão leve que não tem obrigação de falar
Só de ver, da pra notar que o pensamento não sai de lá...

Penso nele sem pensar
Aparece lá como se fosse estampa
Marcado de tinta, fresco, novo e solto!
Todo à toa, de popa à proa.

30 de novembro de 2009

Sinto falta de Emília

Nesse albúm de retratos
Espaço, tempo e sorriso marcados
Emilía tá lá
Emília vem cá
Emília meu lar

Agora não vejo nada além do mar
Nem a linha que delimita o céu
Nem o sol que se esconde
Nem a sombra da lua
Nem o barco de pesca
Nem a carta de Emília

Contemplo só o que a vista alcança
Reparo no que o coração pede
Se tenho sede
A sede não é de mar
Nem de lágrima
É de amar,
Emília , volta pra cá?

26 de novembro de 2009

As voltas



Saí para onde era o dentro de alguns
Gritei no abafado do barulho
Sorri pra chorar depois
Fui diferente na enchente de diferenças semelhantes
Corri pro lugar de quem foge
Sonhei com o que já foi e vai ser de novo
Repeti alguém de alguém que será de alguém
Escondi o que foi escondido e achado
Fiz com o que já foi feito
Usei a matéria prima da matéria prima
Destruí pra reconstruir
Olhei e fui olhada pra depois esquecer o que olhei

E de todas as voltas que dei, alguma restou
não voltou e nem tornou
e então entendi que ficou o que será, virá e assim como essa tola rima, permanecerá.

23 de novembro de 2009

Apagar-me

Apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme.
 
Paulo Leminsk

18 de novembro de 2009

De repente


Para o Daniel.


Numa hora solúvel
Num Repente
Veio.
Senti na pele
o minuto que juntou
o instante ao acaso.

Circunstância e necessidade
casaram sem cerimônia
ao pé duma árvore.

O que era talvez
Momento não escolheu
Pra ficar
Pra fincar
Coração de susto, estacou
e você ficou.
O vento soprou com a sorte
fizeram da semente:
Flor.

O que então era gris
tingiu de anil.
O céu não acaba.
Dura tudo que tem raiz.

Raquel Costa

17 de novembro de 2009

Prelúdios poéticos

No1

No manto lento
Do teu canto
Acalanto.

-----------------------------
No2

Quizá verás
num mar distante
refletidos
no espelho de lua que suspira
los sueños que cabem na nossa sorte
sortidos de espumas cristalinas

----------------------------
No3

As sépalas
me guardaram
até então
aparecerem
exornarem
o jardim:
as pétalas.

15 de novembro de 2009

Sobre memória.

Hoje tive uma palestra ministrada pelo Prof Jair Rubens de Moraes sobre "Memória e Patrimônio cultural", ele falou da relação da memória com a nossa identidade, sobre memória coletiva, subjetiva, a relação do mundo atual com a memória e por fim a relação desta com o patrimônio cultural.

Segundo o Prof Jair, na Grécia antiga, a memória era vista como algo sobrenatural, uma dádiva dos deuses, era despertada pelas Musas, filhas de Mnemosine, a deusa da memória. Hoje ela também possui um valor quase que sagrado por ser a mais profunda relação que temos com o tempo, pois ele nunca há de passar quando gravado nela, é uma evocação do passado, é a nossa capacidade de guardar coisas agora para lembrarmos no futuro e além disso, ela é o que constrói nossa identidade, somos o que lembramos e somos uma somatória de experiências, o "quem sou eu" muda toda hora pois nos criamos por meio da memória.

No mundo atual, a memória é predominantemente artificial, isso é, utilizamos de métodos, objetos, computadores, celulares para  lembrar-nos das coisas, além disso, somos constantemente atiçados a ter o novo, descartamos tudo com facilidade, portanto, estamos cada vez mais nos desmemoriando. Sem a memória, não nos respeitamos, há pessoas que são capazes de conviver anos com uma dor porque simplesmente esqueceram que antes não a sentiam, é como se já fizesse parte delas, ou então, há aqueles que esquecem o mal que já lhes foi causado em determinada situação e voltam a repeti-la.

Assim é com a cidade, quando se tira a identidade e memória desta, as pessoas não se identificam com ela e portanto não a respeitam, a importância dos patrimônios culturais é que eles fixam nossa memória, e por meio deles criamos laços sensíveis com o ambiente externo. As pessoas andam na cidade como se fossem estrangeiras, já não encontram mais aquilo que fez parte de suas histórias, aquele cenário já não lhes faz nenhum sentido, não há relação alguma entre elas e o ambiente que vivem, portanto não há cuidado com ele.

Isso de construir uma relação com o externo lembrou-me do projeto Aprendiz do Gilberto Dimenstein, ele criou uma escola a céu aberto, levou as pessoas de determinada comunidade às praças para plantar árvores, grafiteiros para pintar muros sujos, transformou becos, onde rodavam drogas, em locais para se promover arte, tudo isso teve um impacto tremendo no bairro, as pessoas criaram laços com o ambiente e dessa maneira passaram a respeitá-lo.

13 de novembro de 2009

A instrução dos amantes - Inês Pedrosa

Esses dias terminei de ler "A instrução dos amantes" de Inês Pedrosa, conhecia pouquissímo sobre essa escritora portuguesa e não sabia muito além de que é portuguesa e escritora. Confesso que me surpreendi com o romance, é de uma delicadeza minuciosa e além disso fala sobre os conflitos da adolescência com muita maturidade.
 Todos os livros que leio, salvo raros, são sublinhados, gosto de marcar as frases que marcam o instante da minha leitura, pois volta e meia retorno a folheá-los somente para reler as frases e ver se elas ainda fazem tanto sentido como faziam na época que as destaquei. Segue abaixo algumas frases desse livro que me tocaram:

"As viagens são pretexto desse medo maior que é o de não podermos fugir de nós. Viaja-se como se dorme"

"Não soube quantas horas ficou sentada naquela rocha, porque subitamente o tempo aparecera para apagar os traços domésticos da existência. Perdeu o domínio do mundo e sentiu-se embriagada por um riso estranho, interior, que não tinha qualquer relação com o seu velho hábito de rir"

"E sentia a voz longínqua o avô Matias, pedindo-lhe que não exigisse respostas humanas para o que não é humano"

"O sublime cintila no centro da vulgaridade"

Boa leitura!

11 de novembro de 2009

Quem sou eu?

Muitas pessoas já vieram me questionar a respeito do "quem sou eu", que apresenta uma descrição minha sob minha ótica. Hoje, relendo-o confesso que o achei um tanto vulgar. Utilizarei esse post para dar alguns esclarecimentos a respeito deste, as explicações virão na ordem exata de importância que dou a elas e não na que segue o texto abordado.
O julgar-me uma "das últimas românticas do meu tempo" é um tanto vaidoso e transparece um sentimento obtuso de excepcionalidade, essa  frase de caráter sentimental foi utilizada para florear o texto e também para mostrar um pouco da minha personalidade patética, mas confesso que fui falha na sua aplicação.
O fato de dizer que enjôo rápido das coisas não significa que sou leviana,  até porque não classifico as pessoas como coisas, nem quer dizer que trato os objetos materiais que possuo com descaso, pois sei lhes atribuir o seu devido valor imaterial, que é o esforço mês-a-mês para pagá-los. O "enjoar rápido das coisas" se aplica ao incontável número de atividades que já comecei e não terminei por intolerância a repetição fatigante destas, posso citar algumas aqui: Handball, dança de salão, hóquei, ballet, jazz, piano, violão, futsal, escalada...
Apesar de ficar implícito no texto, pelo recurso estilístico utilizado, que a Ella Fitzgerald é a minha cantora preferida, ela não é. Admiro muito a capacidade que tinha de realizar aqueles bebops com tamanha perfeição, a afinação e o timbre, mas há outras que aprecio tanto quanto ou até mais.
O "ser momentânea" é bem abrangente, no meu caso se aplica ao fato de que as minhas ações são inúmeras vezes induzidas pelas emoções, e por conta disso são bem transitórias. Por isso, acredito que a frase que melhor me definiria e se aplicaria a quaisquer outras pessoas  é a  do texto Reflexo - "Sou assim como me vê, mas não fixe essa imagem, pois tudo passa, e essa que é hoje, amanhã poderá ser outra, que depois de amanha será outra, e outra, e outra, outra.".O que somos além do que acreditamos e do que os outros acreditam que somos? Sob qual ótica podemos nos definir? Não seremos incontáveis "eus" ?


Quem sou eu

Raquel Costa
São Paulo, SP

Sou mulher e não me gabo disso pois "o que não é consequência de uma escolha não pode ser considerado nem mérito , nem fracasso", tenho 19 anos, nascida em São Paulo e criada na ponte São Paulo/Cambury. Gosto de gente simples, gente complicada, música, artes, literatura e de viajar. Sou uma das últimas românticas do meu tempo e acredito no amor, isso faz parte da minha personalidade anacrônica. Sinto muito frio na ponta dos dedos e para aquecê-los só com o calor do secador de cabelos ou assoprando. Tenho saudades de um monte de coisa que não aconteceu e de pessoas queridas. Enjôo rápido das coisas. Nunca fui à Bahia mas morro de vontade de ir. Já usei aparelho fixo. A voz da Ella Fitzgerald me fascina. Gosto de novelas. Não como ostras. Não gosto de ir ao cinema com namorado e talvez tudo isso mude um dia pois sou extremamente momentânea.

6 de novembro de 2009

Ode à simplicidade.

Mãezinha embala o filho na rede
Com cantiga de mar
Ói, o menino ta dormindo, aproveita que é agora
A hora de limpar.
Faz almoço pro benzinho que já já vai chegar
Passa a roupa, limpa o canto, lava o pinho
Estica o manto, pra de noitinha ela amar.

Paizinho sai de dia
Quase a madrugar
Um café bem passado
Não esqueça: a marmita
E cuidado pra não esfriar
Agora deixa de bobeira
Dê-me logo um beijo
E vá trabalhar!

Menino acorda todo acordado
muleque espevitado, arretado
seu troço de diabo!
Tá bonito que só,
Olha lá, teve a quem puxar..
Bota chinelo no pé!
Cuidado pra não resfriar!

O dia de festa ta chegando
Vai ter o maior arráiar!
Mas pra que empolgação?
Se as simplicidades são nosso grande comemorar?

4 de novembro de 2009


A juventude pode ser comparada à torrentes de água de uma cachoeira, não cessa em quantidade nem em movimento. Correm de um lado para outro e se exasperam por quaisquer coisas conhecidas ou ainda desconhecidas que podem lhes sobrevir. Tudo isso em vão, pois aqueles que têm alguma experiência considerável de anos, sabem que as emoções não mudam destinos e que o acaso é que é o maior culpado dos tantos improvisos da vida. Mas o que se pode fazer para fazê-los entender tal cousa? Nada, os poucos anos por eles vividos não são suficientes para que a razão lhes sobreponha os anseios emocionais. Dizem que jovem vira homem quando a sua visão alcança dois palmos de tempo à sua frente e quando a face com acne é substituída por alguma beleza antiquada, pode até ser, mas a tudo isso, acrescentaria um pouco de siso, astúcia e bonança.

Raquel Costa
 Imagem: Joan Miró. Mètamorphose. 1936.

30 de outubro de 2009

Rédeas


Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o!
Fernando Pessoa

Usa aspas pra disfarçar
Com um sorriso mascarado
Pra mulher alguma duvidar
Tira partido
Se enrola no umbigo
E foge sem lar

Coração da moça fica assim:
Todo desarmado
Por causa desse desalmado
Leva tempo pra sarar
Pede luto
Bem sozinho
Até enfim se recuperar

Depois do tempo de afobada
Pinta o rosto
Se alivía
Esquece a mágoa
É hora de comemorar!
Incendeia o coração
Sai pra rua e vê a lua
Agora sim,tudo vai clarear

Felicidade é pra quem vive
E isso, ela sabe
Organiza sua revolução
Desata os nós da paixão
Dança sem parar
Come o que quiser
Ajuda sem pensar
E corre quando quer!

Sabe o tanto que vale um vintém!
Pipoca de rua e cerveja gelada
Quem já experimentou?
Bom pra economizar!
Não gasta tudo o que têm.

Os amigos?
Seus segredos repartidos
Choros, risos e avisos
Sabe bem como amar
Aprende a viver sem seu par.

Já de noite deita mansa
Numa caixa de lembrança
Reza um pouco, bem baixinho
Agora é hora de sonhar.

Raquel Costa

28 de outubro de 2009

Orquestra comilômica.


Num louvor à comilança, a cozinha se confunde com uma orquestra bem harmônica e promove um culto aos sabores. As colheres e os garfos metálicos tilintam embalados pelo vento que entra pelas janelas abertas, a panela de pressão imita o barulho de um trem, os passos apressados em satisfazer as fomes, improvisam um solo no solo, que segue toda progressão harmônica, e os burburinhos de algumas efemeridades faladas se confundem com o compasso de colcheias exatas de cada batida da faca na madeira ao cortar a cebola em mínimos quadradinhos, a contagem destas, poderia ser comparada a um metrônomo com 96 batidas por minutos. A parede nostálgica, de azulejos azuis e brancos está repleta de pequenos brilhos cristalinos, causados pelas micro-bolhas-flutuantes que saem da erosão de água com tempero dissolvido . No fogão, as labaredas fazem dos pedaços crus uma explosão de cheiros, estes envolvem e unem os presentes num uníssono coral de gentileza à criatura que prepara as delícias que irão satisfazer as suas vontades carnais.
Sentam-se nas cadeiras e apóiam os braços na mesa, púlpito dos manjares e das discussões calorosas, e então numa comunhão de paladares, compartilham um único alimento feito a partir da mistura de algumas matérias primas e preparado por alguém que soube, com maestria, combiná-las e cozinhá-las. Bon appetit.

26 de outubro de 2009

Descomedido


É tanto, que sufoco meu pranto
pra te ver sorrir

É tanto, que almejo uma vida
que nasce de ti

É tanto, que me entrego sem freio
ao seu abraço derradeiro

É tanto, que dói sem querer
e dissipa ao te ver

É tanto, que ensurdece tudo em volta e cala em mim
só para te escutar

É tanto, que cega os seus defeitos
os seus desfeitos e a minha mágoa

É tanto, que abracei sem medo
a sua casa, suas manias e os sobejos

É tanto, que afoga o desejo
É tanto, que afoba meu peito
É tanto, que foi maior do que minha prece
Foi tanto, que a gente não esquece.

Raquel Costa

23 de outubro de 2009

DDA, SEM H

Nunca cometo o mesmo erro duas vezes, já cometo duas, três, quatro, cinco, seis, até esse erro aprender que só o erro tem vez
Paulo Leminski


DDA ou DDAH, no meu caso é o DDA sem H, constatado por alguns testes, e sem H pelo fato de que consigo me sentar e ficar horas lendo um livro em absoluto silêncio ou ter uma conversa sem atropelamentos. Mas chega de falar em siglas, o DDA significa Déficit de Atenção e o DDAH, Déficit de Atenção com Hiperatividade. O Déficit de Atenção ou é genético, ou ocorre por problemas no parto ou é resultado de alguma situação traumática, no meu caso é genético.

Ontem, contei para uma colega de trabalho algumas situações que já passei por conta dessa falha na atenção e isso nos rendeu um almoço um tanto engraçado. Vou compartilhar com vocês também o que essa deficiência pode provocar:

Lembro que na minha infância, os agasalhos não duravam mais de um mês no armário, para loucura da minha mãe, os esquecia na escola, no parque ou em qualquer outro lugar que fosse. Todo fim de ano, tinha “uma exposição” de todos os utensílios do armário dos “achados e perdidos”, e ficava difícil carregar pra casa tantas coisas acumuladas durante o ano. Agora não são mais agasalhos, mas para minha infelicidade, são bolsas, comandas, carro no estacionamento, documentos, cadernos...

As situações mais embaraçosas aconteceram com desconhecidos, como por exemplo, quando comprei algo e, para o desespero dos vendedores, esqueci de pagar na hora, mas pior que isso, foi às vezes em que paguei e me esqueci de pegar o que comprei! Pode acreditar.

Já ocorreu, algumas vezes, de chamar a galera pra um churrasco e de no dia...Todos ficarem para fora esperando a anfitriã! Esquecida e distraída, claro. Ou então, de marcar vários programas no mesmo horário e comparecer a outro que não estava na agenda! Ainda bem que as pessoas que convivem comigo são super compreensivas e sempre levam na esportiva – Porra Raquel, se não fosse você e se eu não te conhecesse, já mandava à merda...

Mas a pior de todas foi essa: uma vez, no intervalo da faculdade, comprei um café expresso e me sentei para conversar com uns amigos, papo vai, papo vem, café esfria, eu converso, gesticulo e por fim, o café esparrama-se por toda a minha cabeça! Que coisa ri-dí-cu-la, esqueci que estava segurando um café e o virei em mim!

Essa deficiência já me rendeu algumas situações engraçadas e outras constrangedoras, confesso. Mas agradeço aos médicos por darem uma nomenclatura a algo que poderia ser considerado pura idiotice, valeu!

22 de outubro de 2009

fugiu da memória..

Ontem, antes da minha siesta, tive uma idéia genial de postagem para este blog, mas deu preguiça de escrevê-la. Lembro-me apenas de repeti-la na minha cabeça para lembrá-la após o sono, mas não funcionou. Fica aqui uma incompleta memória póstuma desta idéia e um desabafo de alguém que está tentando, com fracasso, lembrar de algo que ia falar. Ainda bem que os pensamentos não são iguais as pessoas, eles ressuscitam. Se isso acontecer, prometo que irei postá-lo aqui. Enquanto não o lembro, aceito sugestões de publicações.
Gracias.

20 de outubro de 2009

Há escritos grandiosos demais para serem julgados por ordinários mortais, nos quais eu me incluo. Um deles é "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa, o bruxo ou o gênio (fica a critério do leitor).
Segue abaixo um trechinho que me toca e é bem conhecido:

“Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor.
Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”
 
Lindo!

18 de outubro de 2009

Leito

Eis o momento de desalinho:
dou um estalo com os lábios
tingidos pelo vinho
seguro seu queixo
sinto teu hálito quente
na minha boca rubra,
sabor do beijo que me acende.

O nosso cobertor não
é algo que se emende
santuário perfeito
para nosso sacrifício
amor e vicío.

Como tiras de cetim em cabelo liso
as mãos escorregam nas coxas redondas
miro risonha as carícias que mostram
as escondidas malícias.

Somos benignos até
nessas horas de maldade
presentes unidos contemplamos com vaidade
nossos corpos atados.

As horas não cabem na nossa vontade
e a noite não têm piedade
aos poucos ela se esvai
e os raios que tingem nossa pele
acabam com nossa quentura de paixão
em mim florece a amargura da separacão.

16 de outubro de 2009

Lugares-comuns e frases feitas


- Acabar-se o que era doce
-Águas passadas não movem moinhos
-Procurar agulha em palheiro
-Amanhã será outro dia
-O amor é lindo
-Com o passar dos anos
-Dar o ar de sua graça
-Rodar a baiana
-Filho de peixe, peixinho é
-Tal pai, tal filho
-Presente de grego
-A noite é uma criança
-Recordar é viver
- A verdade que não quer calar
-A vida imita a arte
-Ser um zero a esquerda
- Cantar vitória
-Entrar de gaiato
-Custe o que custar
-Vale o quanto pesa
-Dormir no ponto
-Onde a porca torce o rabo
-Sentir um frio na espinha
-Dizem as más linguas
-Preço camarada
-Minha vida é um livro aberto

WERNECK, Humberto. O Pai do Burros. Porto Alegre: Arquipélago, 2009.

15 de outubro de 2009

Des-amor

Olhos nos olhos
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
Chico Buarque
Você em mim, sobrou
Eu em você, faltou
Agora sei que aquele tanto
Que acumulou todo o meu pranto
Quando você se ausentou
Era decepção por
Um palhaço que se apresentou

Dos meus versos com paz
Minhas carícias, meus ais
Só ficou o que te interessou

Suas promessas de um lar,
Nosso filho, um altar
Eram todas rasgadas
De uma novela sem alma

Agora não é mais
Procure alguém rapaz
Que ocupe a sua platéia-muda
Para você se afirmar
Sem alguém para falar o que
Há no compasso orgulhoso
Do seu ritmo (des)harmonioso

Se eu olhar pra trás
Vou sorrir, sem mais
E te agradecer
Pelo único gesto
Que me agraciou nesse tempo todo perdido
Nos teus braços de bandido
Gesto de sair e se revelar
Numa face de noite e
Secura de um canalha coitado
Que agora vive todo amargurado.

13 de outubro de 2009

Sobre o muito falar

Até o estulto, quando se cala, é tido por sábio, e o que cerra os lábios, por sábio
Provérbios de Salomão
 Com essa onda de pessoas expondo os seus corpos e suas vidas tão abertamente, a individualidade e a discrição tornaram-se coisas raras, vejo muitas pessoas que não falam por ter algo a dizer mas porque precisam falar alguma coisa e necessitam externar seu interior baseadas apenas na sua insensatez. Isso me faz lembrar de um provérbio que meu pai constantemente repetia para mim quando era pequena "Como maças de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo".

Nesse fim de semana ví uma mulher que falava absurdamente alto, gritava com todos que estavam com ela, dava palpites escandalosos e obviamente atrapalhava a todos que, como eu, desejavam escutar nada além do barulho do mar e ler um livro. Observando-a, lembrei-me e concordei com algo que li da Clarice Lispector, que a beleza da mulher é afirmada ou constituída na sua discrição. Uma mulher que aos padrões estéticos é considerada bonita em alguns minutos fez-se feia e pública . Mas ela não é uma exceção, cada vez mais tenho visto pessoas assim, querendo chamar a atenção para si por meio de escândalos ou falações interruptas.

A minha avó foi um exemplo de beleza e elegância, era mulher muito humilde que desde cedo trabalhou para ajudar a família, não tinha roupas de grifes, todas eram criação própria ou herança da sua mãe, não usava adornos e nem sapatos caros, se foi o centro das atenções numa conversa é porque a colocaram ali e da sua boca só saíam elogios finos e palavras construtivas, até mesmo quando o alzheimer já lhe roubava a razão. Foi uma mulher que preservou sua individualidade e que era admirada por todos não só pela elegância mas por todas as outras qualidades evidentes que possuía. Parece que as virtudes ficam mais aparentes naquelas pessoas que não se esforçam para mostrá-las e que sabem o momento certo de falar e calar.

8 de outubro de 2009

Poema de cabeceira

Recentemente conversei com um amigo sobre as coisas cuja repetição não é fatigante, pelo contrário, é por meio desta que elas se tornam mais valorosas para nós, como se fossem um rito, um exemplo disso é pedir o mesmo prato todas as vezes que vamos num restaurante, ou aquela camiseta que já está surrada de tanto usarmos, uma marca de xampu, um doce que vende na porta da faculdade ou até um amor jurássico que nunca temos “coragem” de abandonar. Essa poesia da Cecília Meireles é um desses casos de repetição meu, o livro está até marcado na página dela, de tanto que a leio. Por achá-la uma boniteza quis compartilhá-la com vocês, repitam a leitura à vontade!

É preciso não esquecer nada

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

Cecília Meireles

4 de outubro de 2009

Reflexo

Me olho no espelho para buscar beleza que me faça ser merecedora tua, tudo o que vejo é efêmero, os traços no meu rosto fazem-me lembrar da parábola dos vinhos novos em odres velhos, só que ao contrário.

Das coisas que vivi, sei que guardei bem o que podia aprender e sei também que faltam saberes por outras que não experimentei. Os desgastes do dia-a-dia passam pelas minhas linhas de expressão como se fossem águas correndo entre as pedras, e dessa maneira, vão moldando os seus caminhos durante os anos.

Já fui sertaneja sem visitar o sertão, já fui arguta, já fui ardilosa, já fui arcaica, já fui pagã, já fui santa, já fui vidente, já fui amada, já fui odiada, já fui feliz, já fui triste, já fui noite e já fui dia, de todas as coisas que passei , tentei guardar meu coração, em algumas um pouco me deixei e de outras me separei.

Sou assim como me vê, mas não fixe essa imagem, pois tudo passa, e essa que é hoje, amanhã poderá será outra, que depois de amanha será outra, e outra, e outra, outra...

Não me importa mais a vagueza dos acontecimentos, me prendo nos símbolos, esses sim me dão alguma felicidade. Com eles eu abaixo a cabeça para fazer uma oração, sorrio sem falsidade para as pessoas, coloco flores nos livros, escrevo cartas e peço bênça prá vó. Descobri que não me basto, mas para alguém posso ser o suficiente. Se não te sirvo, me descarte e saia logo de mim, mas se quiseres minha companhia até no meu silêncio, me entrego a ti sem fim.

2 de outubro de 2009

2 Parágrafos sobre: Fé x Emoção



         Esses dias conversei com o Fabinho sobre razão x emoção e ele fez uma citação do C.S Lewis que gostei muito, é mais ou menos assim: "De um lado está a fé e a razão e de outro a emoção e a imaginação". Achei tal afirmação muito sensata e verdadeira, cabe bem para confrontar a atual realidade das igrejas, que atiçam o emocional de seus fiéis para obterem audiência e lucro, sendo que a verdadeira fé nada têm a ver com as emoções e sim com a certeza daquilo que não se vê.
         Na minha opinião, a manifestação de toda fé concreta se dá no racional, pois as emoções são provocadas pelo visível e pelas sensações, e fé não é algo que se sinta, é escolha, assim como o amar, quando num certo estágio acaba o fervor da paixão inicial, os desejos e passa a ser uma escolha de se dedicar a pessoa a quem este se destina.

1 de outubro de 2009

Tia Sil

Ontem minha mãe me acordou cedo e falou algo que custou para eu processar: a tia Sil morreu.
Doeu fundo essa notícia, pensei que o mundo perdeu uma pessoa maravilhosa.
Sem falar muito, arrumamos nossas coisas e fomos direto para a praia, onde seria o velório e o enterro.  Quando chegamos lá, ví um monte de rostos conhecidos e queridos, não tive vontade de cumprimentar ninguém, fui direto aos filhos e os abracei com compaixão, sofri junto a dor deles, porque a Tia Sil era como uma mãe para mim .
 Passei muitas férias da minha vida na casa dela, comi seus bolos maravilhosos, dei muitas risadas com ela, fui cuidada por ela, apresentei os namorados que já tive, ouvi histórias e contei algumas também... No velório, o Márcio disse que generosidade era a palavra certa para a tia, e todos que estavam ali presentes, eram muitos, concordaram.
 Nunca ví mulher tão generosa como ela, a criançada do bairro vivia na casa da tia, ela brincava, conversava e dava bolo,aliás, nunca vi aquela casa vazia. Para ajudar os moços que trabalhavam nas obras, ela pegava as roupas deles e as lavava. Os meninos viviam dizendo com um sorriso largo "a tia cuida da gente". No começo desse post eu disse que o mundo perdeu uma pessoa maravilhosa, porque a tia Sil era uma raridade, hoje as pessoas estão mais preocupadas em ganhar do que doar, ao contrário disso, ela foi uma pessoa que se doou a vida inteira e que "amou ao próximo como a sí mesma".
 Têm uma parabóla do bom samaritano, que diz que certo homem foi roubado e agredido por ladrões, ele ficou semi-morto, perto dele passou um grande lider religioso e este, vendo-o caído no chão, passou ao largo. Logo depois, passou um Levita, aquele que cuidava de todas as atividades no templo, vendo o homem debilitado, também se afastou. Certo samaritano que passava, compadeceu-se dele, tratou-lhe as feridas, levou-o para um hospedaria e deu um dinheiro ao hospedeiro para cuidar do homem que nem conhecia. A tia Sil foi uma boa samaritana, não importava quem, ela estava sempre disposta a ajudar.
 Dizem que reconhece-se as pessoas boas pelos bons tratos que elas têm com os animais e as crianças, pois estes não têm nada a nos oferecer e são inofensivos. A tia era uma pessoa apaixonada pelos bichinhos e pelas crianças, ela cuidava destes com todo carinho e amor.
 Ontem nós choramos e lamentamos, mas no céu teve uma grande festa com bolo e muitos ursinhos de pelúcia (que ela amava) para receber a menina Sil, de vestido e fita, pra brincar com toda a criançada de lá e contar as  histórias bonitas, que não foram poucas, que viveu nessa terra.

29 de setembro de 2009

Não grites, não suspires, não te mates: escreve
Drummond


Chorei um choro rasgado, choro seco, choro molhado, choro tímido, choro tatuado, choro de arrancar o peito de dentro de mim e chorar junto com ele, choro amargo, choro no breu, choro largo, choro de se olhar no espelho e chorar de pena, choro de chuveiro, choro doído, choro de carro, choro despido, choro vestido, choro com trilha sonora, choro confundido, choro baixinho, choro arrependido, choro alto, choro repentino, choro  de (com)paixão, choro no silêncio, choro discreto, choro cantado, choro público, choro junto, choro cansado, choro concreto, choro desabafo, choro acostumado, choro soltinho e choro acumulado.


27 de setembro de 2009

Pérolas do Terceiro Ano

Acho que o terceiro ano do ensino médio é a fase que a maioria das pessoas sente uma espécie de contradição de sentimentos, um deles é a vontade de sair logo da escola, para uma fase de descobrimentos e de perspectiva de uma vida totalmente diferente e o outro é o de nostalgia, apego e saudades de algo que fez parte da vida durante muitos anos e irá acabar. Foi assim comigo, só que a segunda sensação bateu mais forte. Não pelas pessoas que conviveram comigo, porque essas eu tenho certeza que vou manter contato pro resto da vida, mas pela nossa convivência diária, confidências, sambas no meio da aula, risadas, esconde-esconde pela escola, besteiras e aprendizados... Foi o ano que aproveitamos o máximo daquilo que já estava por um fio: a nossa infância. A minha sala tinha apenas 16 pessoas, então não tinha gente nem espaço suficiente para divisão, era todo mundo muito unido e isso contribuia muito para toda algazarra que fazíamos. Estou nessa nostalgia toda por que hoje achei um documento preciosíssimo que o Fernando (Perna) fez durante o nosso ano, ele anotava em um caderninho todas as conversas, situações e frases engraçadas que aconteceram durante as nossas aulas. Vou copiar algumas delas aqui, gostaria de colocar todas mas são 16 páginas de word(!!!):


Obs.: Os comentários são todos do autor.

Obs2.: Algumas coisas só fazem sentido para quem as vivenciou.

“Na Aula de inglês: O ‘but’ exerce ligação na frase.
Na aula de religião: O que nos liga à Deus?
Massa: O BUT!”

“Professor Wilson:
No começo da aula: Faça a sua parte para o Brasil melhorar, se um cara jogar um papel de sorvete no chão, vai lá e pega...
No final da aula: O que nós podemos fazer para melhorar o Brasil?
Giga: Pegar o papel de sorvete do chão!”

“Professora Marize: O que você quer exercer no futuro, o que quer fazer?
Fernando: Atuar!
Pedro: O quê? Tabuada?!
Clara: Tocar
Pedro: Então você é uma toqueira! (cuma?)
Marize: Agora me diga uma coisa que você não quer nunca aprender e não gosta.
Pedro: Ser viado!”

“Pedro queima a prova de física no meio da aula! (normal!) Depois fala: Meu, coloca música, é melhor pra ficar queimando as coisas.”

“Professora Marize: Agora me digam: Como vocês vão estar daqui a 7 anos?
Se liga nas respostas inteligentes da nossa classe prodígio:
Paiva: Vou estar com 25...- NÃO! Sério?
Pedro: Eu vou viajar com meu cabrito velho!
Caio: Eu vou tentar não ser pobre!”

“Professor Péricles chega de avental.
Raquel: Você tá parecendo um pasteleiro!
Lobão: Vê dois quilos de alcatra!”

“Henrique: A palavra ‘imperialismo’ me lembra os elefantes em guerras medievais”

“Professora Marize passando sermão: Quem vai pagar o preço sou eu!
Pedro: Não importa: Todos vão morrer!”

“Pedro: Todo cachorro que tem uma bola só, pode perceber, já guardou rancor!
Pedro: Minha mãe mandou eu fazer o pré de novo, porque eu sou muito inteligente!”

“Caio para o Professor de química: Profº Alex, eu gosto de você e não gosto da matéria!
Bárbara: Eu gosto da matéria!”

”Raquel da um grito do nada: TCHUKI! TCHUKI É CARINHO- Êta cachaça!”

“Lobão para professora Beth: Responda sinceramente, você já soltou uma bufa na sala de aula??? Isso é pergunta?”

“Pedro:... tem que ter jogo de cintura pra dar aula no 3º!
Professor Sandro: Jogo de cintura? Tem que ser dançarino pra dar aula pra vocês!!!”

“Raquel e Bárbara conversando.
Prof Sarah: Pra fora as duas!
Raquel: Não professora, a Bárbara não tem culpa!
Prof Sarah: Então sai só você!
Raquel: Mas eu também não tenho culpa!
(A Raquel sai. Depois de uns 2 minutos ela abre uma fresta da porta coloca a cabeça pra dentro e fala com mó cara de cachorro abandonado)
Raquel: Posso voltar agora??
Prof Sarah: Não!- Huahuahauhauha!!!

“A sala conversando.
Professora Beth: Eu vou falar o que eu falo para as crianças: você copiar prestando atenção já é meio caminho andado...
(Giga continua conversando)
Eu acho que você não me entendeu, copiar conversando não adianta nada
Giga: Mas eu tô conversando sem copiar, aí tá certo!”

“Professora Débora com a folha de ocorrência na página do Pedro:
Débora: Devia ter a opção: atraso mental, não tem, que pena!”

“Pedro no primeiro dia de aula: Paivão você tá viva?! Achei que você ia morrer!
Paivão: Porque?
Pedro: Por que sempre alguém morre, né?!”

“Subes: Profª, ontei eu fritei o ovo em cima do bife. O bife ficou com gosto de ovo e o ovo ficou com o gosto de bife”

“Professor Wilson: Na frase: ‘A Layara chora’, Layara é um sujeito simples ou composto?
Pedro: Composto! Porque ela tem o Henrique!”

“Professor Sandro: O gás é leve?
Giga: Depende do que você comeu!
Rodrigo: Se for uma feijoada, aí é pesado, hein?!”

“Giga: Psora Patrícia, porque eu tô arrotando ovo frito se hoje eu não comi nada de ovo?”

“David: Então pra viagem, já está tudo engatilhado.
Raquel viajando já: Precisa levar forninho elétrico?”

“Giga: Eu não fiz palhaçada, só soltei o sutiã da Bárbara (Só!Huahuahuahua)
Professora Sarah: Mas é uma sensação horrível!
Bárbara: É tudo caído!
Giga: O meu cai e eu não uso sutiã!”

22 de setembro de 2009

Preparação



Antes do amor chegar preciso arrumar a casa, lavar as janelas, pintar as paredes, fazer do meu jardim um ninho, tirar as ervas daninhas e plantar os girassóis. Por enquanto está tudo muito desarrumado, desalinhado, acabrunhado, cê me desculpa seu moço, mas eu tenho que me organizar. Vou fazer do meu lar o seu conforto bem presente e do meu corpo, seu corpo. O firmamento será de concreto, livre de oscilações e dos perigos de desabamento. Terá um chuveiro grande prá te lavar dum dia ruim e desatar o nó das costas do jeito que minha mãe dizia- é só deixar a água quente escorrer que melhora! O piso será de madeira prá você andar descalço e não pegar resfriado. A casa terá dois espelhos, um grande e outro pequeno, o grande para você ver o quanto é bonito, para te afirmar. O pequeno é só para os detalhes, lá você poderá enxergar o jeito que as mãos se tocam, os bilhetes nos sapatos, os lençois marcados e a cumplicidade nos embaraços do dia. A porta vai estar sempre destrancada, você poderá entrar e sair à hora que quiser. O seu carinho vai estar sempre no sofá, com cafuné, beijo, cheiro e abraço. Nesse lar, o amor não será negligenciado nem moderado, ao contrário disso, será cheio de apetite e paixões. A mesa será cercada de amigos e os pratos lotados de maturidade e bom senso. No mural, alguns momentos nossos fotografados para sentirmos saudades e vontade de outros iguais aqueles. Uma casa, eu casada, recheada de acasos e dos nossos casos.

20 de setembro de 2009

Viajante

Com todas as formas de brincar
Criei ilusões, desmontei corações
Joguei com alguns botões

Me revelei nas musas
Me escondi nas blusas
Sorvi saliva das bocas cruas

Me alimentei de promessas amigas
Multipliquei as almas sofridas

Colori as pistas de solidão
Dei vazão a criação
Aumentei as cantigas de separação

Superei as dores
Despedacei as flores

Sorri com malicia
E parti sem preguiça
Para os novos amores.


Raquel Costa

17 de setembro de 2009

Fragmento da minha leitura atual

“ Onde há inocência? Onde há vontade de gerar. E quem quer criar para além de si, este tem para mim a mais pura das vontades.

Onde há beleza? Onde tenho de querer com toda vontade; onde quero amar e sucumbir, para que uma imagem não permaneça apenas uma imagem.

Amar e sucumbir: isso rima desde as eternidades. Vontade de amor: isto é, estar disposto também para a morte. Assim falo eu aos covardes que sois!”- Nietzsche, Friedrich. Assim falou Zaratustra.

15 de setembro de 2009

O que me coloca em perigo é o que leio.

Quando vejo minha alma refletida no texto de outra pessoa, socorro! Perco toda a minha sintaxe. Fico impávida e sonho com os “amores com cheiro das amêndoas amargas”. As minhas paixões platônicas foram a primeira prosa. De tudo que lê, guarda teu coração. Não seja um tolo como eu, não se deixe ludibriar com palavras, pois o significado embutido nelas foi você quem deu. Se há beleza, é porque ela é tua. Saiba que não passam de palavras com significados e que são as ações dos que escrevem que vão condizer ou não com o escrito (apesar disso não influenciar o que foi criado).
Não falo das cartas de amor, pois estas são direcionadas, e normalmente  o que ama fala dele mesmo. Falo dos escritos sem direcionamento, daqueles que arrancam o seu íntimo e o expõe sem pedir licença, dos que não fazem carnaval, são discretos, usam o silêncio que desperta coisas que já aconteciam, só não tinham consciência de ser, falo de toda poesia. Fique atento quando isso acontece e não confunda o escrito com o escritor, retêm o quê é bom, não fantasie e nem crie metáforas, saiba ser sensato e leve do momento só a emoção de descobrir algo novo que já existia. Não vá procurar por ai réplicas do Vinicius de Morais e nem de Carlos Drummond de Andrade, Chico Buarque então, nem pensar, são muitas muheres para disputar contigo, Joana, Beatriz, Carolina dos olhos tristes, Angélica, Barbara, dentre outras, não pense no Neruda, esqueça o Leminsk, fuja da Cecilia Meireles e não se envolva com Clarice Lispector, Bocage não lhe faria bem, Adélia Prado não te bastaria, Shakespeare certamente iria abandoná-lo, Augusto dos Anjos te deprimiria, Fernando Pessoa te enganaria, Camões seria um paradoxo pra você, Manuel Bandeira iria para Paságarda e tu ficarias sem teu bem, Mario de Andrade te enloqueceria e Maiakóvski nem nasceu. Não vá complicar sua vida, procure alguém bem eloquente, que goste de verão, seja seguro, equilibrado e que assista filmes comédia-romântica-açucarados.

11 de setembro de 2009

COM LICENÇA POÉTICA

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguri linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado.

8 de setembro de 2009


Redenção

Numa ânsia de tentar
Esqueci de agir
E as possibilidades escorreram como água entre os dedos.

De todas as coisas que tinham de ser,
restaram algumas.
Meu vestido esta roto e a vide em flor.

Vou fazer dos retalhos de bons frutos uma veste
para a ceia do meu bom Senhor.

2 de setembro de 2009

Lábia

Composição: Edu Lobo/Chico Buarque

Mas nem cantor incendiário
Ataca à queima-roupa a canção
Há sempre um tempo, um batimento
Um clima que a introduz
Que nem abelha ronda a flor
Que nem dá voltas ao redor
Da lâmpada, ao redor da lâmpada
O bicho-da-luz

Nem pode à meia-noite
Abrir um sol a pino de supetão
Nas noites em câmera lenta
Espero por meu bem
Lábia, flor do bem-me-quer
Lábia que adoça a boca de mulher
Dom de mulher
Que os homens têm

Palavras de virar cabeça
Meu amado vai usar
Palavras como se elas fossem mãos
Tantos rodeios
Pra enfim me roubar

Coisas que dele já são
Mas nem uma mulher em chamas
Cede o beijo assim de antemão
Há sempre um tempo, um batimento
Um clima que a seduz
E eis que nada mais se diz
Os olhos se reviram para trás
E os lábios fazem jus

1 de setembro de 2009

DIMINUTO

Ele pensava em salvar o mundo, mas isso era acompanhado de uma vontade maior de reconhecimento. Sabia da necessidade pérfida e autodestrutiva que sentia de aprovação dos outros, fez diversas tentativas para não ceder à isso, mas foram vãs. Era só um instante de distração que já estava ele lá, elogiando, pensando nos gostos de pessoas diferentes e em como satisfazê-los e agradá-los. Colocava-os em um pedestal, dava-lhes um apito, três cartoes e o poder de julgar. Vestia-se embasado nas tendências que iriam o incluir no patamar de aprovacão geral, falava o vocabulário inventado pelos seus ditadores e jamais discordava. Sua satisfação se baseava no seu culto elitista. Aparentava ser pessoa de grandes criações e de uma personalidade imútavel, mas no seu íntimo era uma criatura minguada que não havia se desenvolvido, quase nula, reclusa na sua casca de insegurança, frágil e pequeno.

27 de agosto de 2009

Justificativa.

Só quero aprender algo que traga conteúdo bom,
compartilhar o que tenha relevância ou instigue mudança.
Sei pouco até do tanto que não sei , dá vergonha de expor isso, assim como as parvoices daqui
mas é menor do que a de fazer e não ter um teco de percepção.

Por que continuar?
É a questao da vertigem
O medo que nos aproxima do que, no fundo, queremos
A vontade maior não realizada por repulsa da razão
O subconsciente que se conscientiza nos sonhos

Pessimista?
Não sinhô, é o que um neologismo diz- só é a vidade meu bem.

26 de agosto de 2009

ósculo:

na tua santidade
me deleito

no seu leito
eu te sorvo

na graça
te absorvo

24 de agosto de 2009

Coberta

E então vai chegar o dia
em que olharei pra você e direi:
É meu.
Assim toda a paixão que teci nos anos
com alguns fios de imaginação
te cobrira dando-lhe alento
não quero ser muito
tampouco pouco
quero ser sua grandeza exata
e te esquentar.

Raquel Costa

23 de agosto de 2009

Fico impressionada com a sabedoria do excelentíssimo Millôr.
Hoje lí algo dele que não posso deixar de publicar nesse recinto de idéias simplórias, porém, algumas delas, confesso, são geniais, assim como essa abaixo, que de prima senti total identificação e senso de compreensão com o tal descrito:

"Generoso nato, nasceu mignon como solução para o problema demográfico -se todos fossem assim, caberia mais gente no mundo. Mas lembra que, com o mesmo material, Deus poderia fazer um homem bem melhor, aqui assim, nos ombros."

"...Prudente, quando entra em enrascada o primeiro que faz é perguntar onde fica a saída"

"Decidido, quando vê uma bifurcação imediatamente segue os dois caminhos. Mas nunca foi sem voltar, daí o segredo de estar sempre."

20 de agosto de 2009

Hai Kai

Sou de ascendência japonesa e me orgulho muito disso. Além de ser fascinada pela gastronomia, gosto demais da cultura, dos rituais e da disciplina dos japoneses (isso eu não herdei). Uma das coisas que mais me encanta desse povo são os hai kais, poesias com uma métrica perfeita, que possuem apenas 17 sílabas numa ordem de 5-7-5, falam dos fenômenos da natureza e da alma do poeta. Acho incrível a tamanha profundidade de sentido expresso em pouquíssimas palavras! Para fazer algo assim, além de precisar de muita técnica é necessário ser extremamente observador e paciente. Difícil!
Isso de ser minuciosamente observador e de criar coisas fantásticas a partir disso, me lembram uma conversa que tive com o meu amigo André Altman. Para um trabalho da faculdade ele terá que escolher um objeto e criar outro, totalmente diferente, porém com a mesma função, genial! O objeto que ele escolheu é uma baqueta, ou seja, algo que produza música, falei para ele observar a natureza, por que não há nada mais inspirador e que transmita mais sons do que ela. Esses poetas fazem exatamente isso, eles observam e criam algo novo para transmitir uma mensagem, só que de uma maneira totalmente surpreendente e estudada. Lí em um artigo que muitos poetas de haikai levavam anos para completar o poema de 3 linhas.
Achei um site bacana, chama a “Caixa de Hai Kais”, você clica em uma flor e sorteia hai kais, teve uma época em que chegava no trabalho e a primeira coisa que fazia era sortear um para começar bem o dia . Segue o link http://seabra.com/haikai/ . Divirtam-se!

Segue abaixo alguns haikais, dos quais muitos não seguem a métrica tradicional japonesa, mas eu gosto:


acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido

Paulo Leminski

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no parque vazio
duas árvores abraçam-se
em prantos de chuva

Eugénia Tabosa

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Nem se lembra
Do arroz grudado ao bigode
Gato enamorado.
Taigi
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A nuvem oferta
delgada talhada
de melão: a lua.
Luiz Bacellar

17 de agosto de 2009

Inspiração a partir do "Tema de amor de Gabriela"

Essa é uma música muito linda do maestro Tom Jobim (veja o vídeo no final do post), gosto especialmente da segunda parte que é o “Tema de Amor de Gabriela”:

Chega mais perto moço bonito
Chega mais perto meu raio de sol
A minha casa é um escuro deserto
Mas com você ela é cheia de sol
Molha tua boca na minha boca
A tua boca é meu doce é meu sal
Mas quem sou eu nesta vida tão louca
Mais um palhaço no teu carnaval
Casa de sombra vida de monge
Quanta cachaça na minha dor
Volta pra casa fica comigo
Vem que eu te espero tremendo de amor

Chega mais perto moço bonito
Chega mais perto meu raio de sol
A minha casa é um escuro deserto
Mas com você ela é cheia de sol
Molha tua boca na minha boca
A tua boca é meu doce é meu sal
Mas quem sou eu nesta vida tão louca
Mais um palhaço no teu carnaval
Casa de sombra vida de monge
Quanta cachaça na minha dor
Volta pra casa fica comigo
Vem que eu te espero tremendo de amor

--------------------------------------------------------------------------------------
"Mais um palhaço no teu carnaval"

Ela já acordou de estômago embrulhado e com aquela sensação de vento frio que percorre por dentro de cada pedaço do corpo. Viu as horas e se perguntou de como podia ser tão fraca? Por que não conseguia fugir, fingir ou dar um jeito de se desvencilhar daquela situação que acabara faz tanto tempo? Porque que quando ela já estava esquecendo ele sempre voltava? E por que ela nunca resistia àquele amor antigo? Sabia claramente de todos os defeitos dele, dos seus novos amores e das suas aventuras. Era sempre assim: quando menos queria saber dele mais o descobria pelo avesso e via seus podres, só que ao invés de menos gostar mais pensava nele. O pensamento, essa coisa incontrolável, inevitável assim como essa rima, que nos toma pra qualquer mundo, situação e nos faz viver até aquilo que não foi.
Ele era o anti-herói, o malandro, aquele que ela sempre sonhara em secreto. Certa vez, ela procurou um culpado para essa atração que sentia por homens daquele estilo infame, pensou na infância e descobriu que os seus príncipes foram sempre o oposto daquilo que é o mais provável como um homem loiro, educado, rico e sorridente, ao contrário disso ,o seu primeiro amor platônico fora o Vasco, personagem de “Clarissa” e “Música ao Longe” de Erico Verissimo, solto no espaço, secreto, misterioso , desbocado , mal arrumado, selvagem , contestador e o amor da vida de Clarissa, mas como ela podia fugir dos símbolos e daquilo que foi costurado nas suas crenças? É dificil sair do nosso lugar-comum.
Mas agora não dava mais pra procurar culpados ou criar teoremas, hoje o encontraria e como todas às vezes, seriam as mesmas conversas temperadas de nostalgia, relembrariam sempre os mesmos momentos, se tocariam como que por acidente e ele a olharia fixamente por alguns segundos que seriam suficientes para deixá-la em puro estado de êxtase. No final de tudo ele diria que não estava pronto para retomar algo que nunca foi direito, porque dizer isso se ela nunca perguntou? Como ele podia ser tão canalha, tão cruel, arrogante e terrivelmente desejável? E como ela se entregava tanto a algo que sabia que era incerto? O que havia atrás dessa vontade de ter o que não se pode? Seria mimo? Vontade de controlar as situações? Ou apenas inconformismo de ser rejeitada?

Raquel Costa


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15 de agosto de 2009

Um pouco de Rosa

Há várias músicas que falam sobre Rosa e é difícil alguém que não conheça uma, pois bem, hoje vou falar só um pouco sobre a minha Rosa e colocar alguns trechos de músicas das "Rosas" de outras pessoas.

A Dona Rosa é a senhora que ajuda aqui em casa, ela é uma graça, sempre de bem com a vida, com ótimas histórias pra contar e faz uma comidinha que dá água na boca só de pensar.

Esses dias eu estava com uma gripe danada, daquelas que derrubam, a Dona Rosa ficou toda preocupada com a minha gripe, dizia que essa era suina e eu só respondia "ô dona rosa, essa não é a do porco, é a da porca mesmo!" e ela desatava a rir . Outro dia minha sobrinha de 3 anos estava brincando no quintal de casa, quando ela terminou , começou a cantar a música que tinha aprendido na escola "é hora de arrumar..." e guardou todos os brinquedos , eu estava no meu quarto ,mas como a minha janela é virada para o quintal deu para escutar tudo , principalmente a Dona Rosa que parou o trabalho dela e foi conversar com a minha sobrinha "olha Isabela, vai lá no quarto da sua tia e canta essa música pra ela" !!!

Já ocorreu algumas vezes de eu chegar em casa e dizer um "Boa tarde minha gente!", ela sempre leva um susto de pôr a mão no peito, só sei que a mulher resolveu se vingar dos sustos e agora ela encasquetou de me dar susto, é só eu me distrair que vêm a Rosa me pregar uma peça!
Abaixo estão as Rosas de alguns mestres da Musica Brasileira:

Das rosas e Rosa Morena do Dorival:

"Nada como ser rosa na vida
Rosa mesmo ou mesmo rosa mulher
Todos querem muito bem a rosa
Quero eu ....
Todo mundo também quer
Um amigo meu disse que em samba
Canta-se melhor flor e mulher
E eu que tenho rosas como tema
Canto no compasso que quiser"

"Rosa Morena, onde vais morena Rosa
Com essa rosa no cabelo e esse andar de moça prosa
Morena, morena Rosa
Rosa morena o samba está esperando
Esperando pra te ver
Deixa de lado esta coisa de dengosa
Anda Rosa vem me ver
Deixa da lado esta pose
Vem pro samba vem sambar
Que o pessoal tá cansado de esperar"

Ou a Rosa do Pixinguinha:

"Tu és, divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor"

A Rosa do Chico Buarque:

"Artista!
É doida pela portela
Ói ela!
Ói ela!
Vestida de verde e rosa
A Rosa!
A Rosa!
Garante que é sempre minha..."

A Rosa do Vinícius de Moraes:


"Rosa prá se ver, Prá se admirar
Rosa prá crescer, Rosa prá brotar
Rosa prá viver, Rosa prá se amar
Rosa prá colher, E despetalar...
Rosa prá dormir, Rosa prá acordar
Rosa prá sorrir, Rosa prá chorar
Rosa prá partir, Rosa prá ficar
E se ter mais uma Rosa mulher...
É primavera
É a rosa em botão
Ai! Quem me dera!
Uma rosa no coração... "

Quem é a sua Rosa?! Se não tiver uma, procure !Não há "Nada como ter uma Rosa na vida..."
Viva o Chopp com Escama! Viva o samba! Viva o Rio de Janeiro , que continua lindo...

Tenho uma amiga que sempre têm histórias boas pra contar ,quando estamos juntas eu peço à ela para narrar alguma coisa bonita ou engraçada da vida dela ou dos outros.
Esses dias ela me contou em detalhes duma paixão à primeira dança que ela teve.

Era um dia frio e ela não queria sair de casa, mas por obra do acaso e talvez destino (porquê não?) , mesmo sem querer a moça foi com duas amigas para um barzinho bem simples na beira de um rio. Após tomar algumas, o desânimo sumiu e ela desandou a dançar , fez bonito , até que uma hora chegou um rapaz com pinta de malandro , camiseta branca ,calça jeans a tomou nos braços e eles dançaram, como se fossem uma pessoa só cantaram em alto e bom som "O Rio de Janeiro continua lindo...O Rio de Janeiro continua sendo.." , a cada olhadela davam risadas espontaneamente bonitas e a moça por um momento esqueceu que não conhecia aquele homem que já parecia seu há muito tempo, esqueceu que não sabia o seu nome e esqueceu de tudo em volta também. Ela olhou para ele com olhos de dona e o beijou , eles se beijaram e rodaram , não perderam o ritmo nem a postura . Após a dança , ele a olhou e disse "Prazer João" e ela ainda envolvida na fantasia só respondeu "Bia" , estendeu a mão , deu um sorriso e o puxou para dançar de novo e foi assim a noite inteira , os dois sendo um na pista .

Depois que ela me contou isso eu lembrei daquela poesia de Drummond "Eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata" .

Inspirada nesse momento alheio e na frase fiz um textinho de guardanapo vagabundo e tomei coragem de publicá-lo aqui :

o homem chegou
cabelo desfeito
corpo aberto no peito
rodou minha cabeça
me levou no salão
o safado me virou de contramão
com passo descompassado
e nem tava engomado
eu dançava
ele me reparava
rapaz ria sem saber
e eu olhava sem doer
lascou um beijo de paz
tirou meu freio
fiquei em devaneio
eu quero eternizar
dançar sem parar
no compasso da paixão
um amor de perdição.

O pior cego é o que vê

Tinha acabado de ler o “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, quando por ventura assisti o curta “No Princípio Era o Verbo” ,de Virginia Jorge, e a partir deste vieram à tona pensamentos guardados dentro de mim, que eu mesma (enfática) desconhecia. O que mais me surpreendeu não foram os conceitos desses pensamentos, mais a concepção deles sem terem sido propriamente gerados, como se já fizessem parte de mim.

Para não haver conflitos com os existencialistas, vou explicar melhor esse “pensamento sobre os pensamentos”, durante a vida guardamos várias informações dentro de nós e essas vêm mediante a educação que tivemos, os livros que lemos, músicas que ouvimos, enfim, tudo o que vivenciamos . Muitas dessas informações permanecem ocultas dentro de nós, por não termos as ferramentas necessárias para compreendê-las, um exemplo concreto disso foi quando li o “Ensaio sobre a Cegueira”, a princípio, confesso que o romance não despertou em mim pensamentos filosóficos ou lições morais, pasmem que para minha ignorância não passou de uma história ficcional , mas ao assistir o curta “No Princípio Era o Verbo”, consegui compreender as mensagens que o livro trazia e absorvê-las novamente, só que de outra maneira, o documentário foi uma ferramenta para que eu pudesse realmente “enxergar” o que já estava “dentro de mim”, ou seja, uma informação precisou da outra para que houvesse uma compreensão mais aprofundada.

O que é de entristecer qualquer um é que com essa “aceleração do tempo” que vivemos, a maioria das pessoas deixaram de fazer coisas que exigem uma reflexão como, por exemplo, ler, assistir bons filmes ou até mesmo escutar boas músicas, e assim muitas pessoas estão se privando de conhecer a beleza que se esconde dentro de cada uma dessas coisas e delas mesmas, porque um aprendizado depende de outro para ser compreendido, e se não há informação, não há aprendizagem.

Notas sobre o livro e o documentário:

O livro “Ensaio sobre a Cegueira” tem na contracapa a seguinte frase “Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara.", citado do "Livro dos conselhos", de El-Rei Dom Duarte, este critica a realidade de até que ponto o homem pode chegar para a sobrevivência , nos coloca frente a frente com o nosso “podre” e com a questão do que somos capazes de fazer, mas a questão que me surpreendeu foi a cegueira de quem vê, mostra como as pessoas ficam submetidas a situações degradantes simplesmente por não enxergarem o que estão vivendo, um ponto interessante é que os únicos homicidas da narrativa são os que “ enxergam”, ele faz uma analogia interessantíssima com a questão da ignorância,do enxergar tudo superficialmente , da maneira que as coisas parecem, mas não como são.

O documentário “No Principio era o Verbo” é composto de cenas cotidianas de um bar, alguns homens conversando e jogando sinuca, dois cegos bebendo e um menino brincando no canto,a principal questão é a “cegueira” de quem vê ,o acreditar no que nos é conveniente, a acomodação que temos nas “certezas absolutas” .

"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras." Nietzsche

14 de agosto de 2009

Ensinamento

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,ela falou comigo:"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

Adélia Prado

Sobre incertezas

É engraçado como algumas coisas aparentemente tolas que quebram nossa rotina podem ser inspiração e se transformar numa poesia, ou em uma música , um monumento ou até em uma teoria.

No livro "A Insustentável Leveza do Ser" do Milan Kundera têm uma passagem que exemplifica isso que estou falando :

"Um certo senhor Dembscher devia cinquenta florins a Beethoven, e o compositor, sempre falido, foi pedir-lhos. " Es muss sein?,tem de ser?", suspirou o pobre Dembscher, ao que Beethoven replicou num tom jocoso: "Es muss sein!, tem de ser !", imediatamente anotou as palavras no seu caderninho e compôs a partir desse tema realista uma pequena peça a quatro vozes: três cantam "es muss sein,ja,ja,ja, tem de ser, tem, tem, tem," e a quarta acrescenta : "heraus mit dem Beutel! puxa da bolsa !"
Esse mesmo tema tornar-se-ia mais tarde o núcleo central do quarto andamento do último quarteto opus 135."

"...Beethoven transformara, portanto, uma inspiração cómica num quarteto sério, uma brincadeira numa verdade metafísica."

Na maioria das vezes as coisas mais grandiosas acontecem por meros acidentes e situações inusitadas. Acho que isso é o bonito de viver, são as surpresas , aquilo que nos pega de supetão , aquele amor que não era esperado e que simplesmente pipocou na nossa vida por meros acasos.

Na vida temos muitas incertezas, devemos com elas nos satisfazer ,pois a única certeza que temos já nos basta e da até calafrio de pensar!

Sexta Feira ,14 de Agosto , 2009

"Eis aqui este sambinha feito numa nota só
Outras notas vão entrar, mas a base é uma só
Esta outra é conseqüência do que acabo de dizer
Como eu sou a conseqüência inevitável de você
Quanta gente existe por aí que fala tanto e não diz nada
Ou quase nada
Já me utilizei de toda a escala e no final não sobrou nada
Não deu em nada
E voltei pra minha nota como eu volto pra você
Vou contar com uma nota como eu gosto de você
E quem quer todas as notas: ré, mi, fá, sol, lá, si, dó
Fica sempre sem nenhuma, fique numa nota só."
Tom Jobim / Newton Mendonça

A letra dessa música é metalingüística , pois como disse o professor De Mattar em seu blog -"além de falar de amor e outras coisas, fala também de como a música está construída. Por isso, é possível ler a letra e imaginar o que está acontecendo na melodia, mas é também possível olhar para a melodia, mesmo sem entender nada de música, e enxergar lá a historinha que a letra está contando" .

E assim é a relação entre os textos aqui escritos com aquela que os escreve. "É possível lê-los e imaginar o que está acontecendo na autora , mas também é possível olhar para a autora, mesmo sem entender nada do texto , e enxergar nela a histórinha que o texto está contando" .